Sunday, June 16, 2019

NA CONTRAMÃO, ÍNDIA OU AMAZONAS COMO DESTINO?

Quem passar pela “Saraiva Mega Store” poderá descobrir entre tantos títulos lançados, o livro ‘Entre nós dois...’. Intrigada, essa pessoa acabará perguntando para si: quem é essa escritora?” Na orelha do livro (apenas uma orelha) tem apenas a informação, “Nascida em Manaus, Izis Negreiros é fotografa, produtora e roteiristas de filmes”. Na contracapa, uma rápida sinopse sobre o livro. Momento em que se descobre se trata de um romance com passagem pela cultura indiana. Apresentação do livro, Izis dispensou. Então é isso, “Entre nós dois...” é a saga de amor de Vania Gupta e Rishi.
Nascida da Índia, criada no Amazonas por força dos ‘deuses indianos’. Vania perdeu os laços com a cultura do seu país de origem. Já adulta, depois de terminar o curso de enfermagem, volta à Índia para descobrir o país em que nasceu e encontrar a identidade perdida. O meio que encontra para facilitar essa reintegração é o voluntariado. Assim, passa a trabalhar como enfermeira voluntária num hospital em Bandra, um bairro de Bombay na tradicional Índia. Mais uma vez, os ‘deuses indianos’ traçam uma nova trajetória para Vania que descobri o amor nos braços de Rishi, um médico indiano em conflito com a sua própria existência. Rish, numa investida cafajeste nos padrões ocidentais, seduz Vania que agradeceu aos ‘deuses indianos’ pelo bliss (ato de felicidade) recebido. Enfim, um amor carnal que a tornou devedora por toda a vida.

Izis, novamente ousada, arrisca um passeio pelo labirinto da cultura indiana, ao mesmo tempo em que passeia pela cultura amazônica. Através dos principais personagens, encontra-se a contraditória vida x morte, a busca da espiritualidade na tentativa de justificar a relação matéria x espírito. A nova escritora nos surpreende na forma que narra a sua história. A personagem Nina, uma curiosa sobre a cultura indiana, narra na primeira pessoa o seu encontro com Vania, em seguida permite que Vania seja a narradora da sua própria história. Na condensação dos blocos narrativos, Izis aplica um recurso muito usado na confecção de um roteiro de cinema e montagem de um filme, ou seja, não tem o compromisso com uma narrativa linear. Isso ela trás do cinema que pratica motivo que força o leitor a dar mais atenção em cada capítulo para não se perder na trajetória dos personagens. Assim, nasce uma escritora. Como escrever é um exercício. Izis Negreiros começou a exercitar com louvor.
Manaus 20 de agosto de 2011.

Roberto Rogger

diretor, roteirista e membro do Conselho Municipal de Política Cultural

Atrás do espelho - Parte I

O silêncio mata, aborrece e entristece... Podemos entender o sentimento do perdão, mas isso não significa perdoar, pois somos frágeis, vulneráveis e às vezes miseráveis na essência.  É difícil? Sim, é difícil. A dor não pode ser curada apenas com remédio, pois ela não é superficial, ela está na alma. Por isso é mais difícil sarar, mesmo assim, temos de tentar esquecer algo ou alguém. Então é melhor deixar o perdão para Deus e trazer misericórdia para nossa vida.

"A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e quebrou. Cada um de nós recolhe um pedaço e diz que a verdade está naquele caco.”
                                                                         Provérbio iraniano 

Tuesday, October 31, 2017

A Mulher e o Rato

Em uma pequena casa vivia uma mulher que aparentava ter 60 anos ou mais. Costumeiramente ela saía todos os dias pela manhã e caminhava por diversos quarteirões da cidade a pé porque não tinha dinheiro para pagar uma condução, mas de noite, ela sempre, com o semblante triste retornava.  A porta principal da casa dava direto na sala onde o destaque estava num quadro emoldurado contendo a figura de uma menina e uma mulher entre olhando-se. 
A visão do quadro era a única coisa agradável que os olhos podiam ver meio aquelas paredes decadentes onde o reboco envelhecido soltava-se. A  cor também havia desaparecido quase que, totalmente pelo tempo.  A mulher chegava sempre da rua trazendo sobre seu ombro um saco velho cheio de quinquilharias, mesmo assim, aparentemente exausta, a admiração dela naquela imagem parecia levá-la para um lugar mágico. Onde talvez, só ela conhecia. Observar a beleza contida nele enchia-lhe os olhos d´água. Depois as lágrimas eram enxugadas com sua mão enrugada, suja, coberta por uma luva de lã velha e esburacada, onde os dedos ficavam à mostra. Após um breve momento ali, ela se dirigia para outro cômodo da casa.  
O cansaço era visível no corpo da mulher que preenchia apenas um lado da cama. Porém, ela não estava sozinha. Na casa, entre as frestas, também vivia um hospede secreto. De hábitos noturnos, ele, o rato, saia de sua toca para passear pelos cantos da morada da velha senhora. Ele era um rato tocador de flauta doce. Às vezes ele se descuidava e alguma coisa caia no chão. O barulho fazia a mulher acordar. Então, prontamente, ele pegava sua flauta e tocava. A música era tão boa aos ouvidos que a mulher voltava a dormir logo em seguida. 
Um dia, após outra rotina diária, a mulher recolheu-se em sua cama mais cedo. Só que ela demorou pegar no sono. E, não demorou muito um ruído veio da cozinha. Com medo de que alguém estivesse invadido sua casa ela fingiu estar dormindo. O rato, como era de costume, pensou que havia despertado a mulher com sua desordem. Nervoso, o rato correu para o quarto dela ficando de prontidão ao lado da cama. Ele pegou a pequena flauta e começou a tocar.   
Ainda deitada na cama a mulher abriu os olhos. Por um tempo ela ouviu atentamente a música do pequeno flautista e foi a primeira vez que ela não achou que estivesse sonhando, pois estava acordada de verdade. Subitamente a mulher levantou-se da cama e flagrou o rato. A música cessou imediatamente. O rato assustou-se. Mas não tentou fugir. Ela abriu um sorriso e disse-lhe - Toque. Gosto de sua música. Ela encanta. Ela me faz feliz. Ela me faz sonhar. Ela me faz esquecer que essa vida é tão dura. E, parece que você não terá outra plateia além de mim. - A mulher deu uma piscadela para o rato e voltou a deitar-se em sua cama.        

Sunday, January 29, 2017

O dinheiro não salva ninguém! Mas com certeza nos deixa menos impotentes. 

Saturday, September 17, 2016

ELA NÃO É ELA. ELA É ELE

Ela ou ele? Como queiram se dirigir a ela. Talvez ela deseje apenas deixar um recado ou mesmo ser uma amiga que nos alerta para não irmos por caminhos que às vezes podemos julgar como certo. Outro dia eu estava voltando para casa. A estrada estava bem tranquila para dirigir no horário noturno, por isso me atrevi a ouvir a minha playlist preferida no iPod. Já era tarde quando avistei um grupo contendo muitas e variados estilos de motocicletas. Elas passaram rápidas por mim fazendo manobras bem ariscadas. 

O barulho era tão estarrecedor que dentro do carro eu podia sentir o chão vibrar. Aí acelerei também e os segui por aquela estrada. Não posso negar que a velocidade é algo excitante, pois é fácil compreender e invejar o que eles desejavam daquele instante, mas há uma grande diferença entre estar em uma motocicleta e um carro protegido por uma carroceria, então o mínimo que podia acontecer, dependendo, do tipo de acidente era ter meus ossos fraturados. Porém, no caso em que algum deles caísse em alta velocidade seria algo bem inimaginável. No cruzamento seguinte finalmente os alcancei e pude ver quantos eles eram. Eles estavam bem a minha frente esperando em fila para descer a curva do inferno e sentir a mais pura adrenalina. Por um momento eu disse a mim mesma - Ha! Então são vocês que todas as quartas perturbam meu sono com o barulho desses motores? Mas como pode uma pessoa colocar sua vida no limite? - De repente uma voz disse-me baixinho - Qualquer dia vou dar-lhe uma demonstração. Talvez apenas uma lição ou não? - Passado alguns dias depois e voltando para casa fazendo o mesmo percurso deparei-me com um aglomerado de carros, motocicletas e gente no mesmo lugar. O trânsito estava caótico, lento e bagunçado para aquela hora da noite em uma via que não costuma ser movimentada. Pensei que devia ser algum acidente. Então parei o carro no acostamento e misturei-me a outros curiosos para saber o que de fato ocorria ali. 
Para minha surpresa era um deles. Um daqueles jovens destemidos que dias antes desbravava a estrada desafiando a curva do inferno na mais pura euforia. Talvez, ele até tivesse passado por mim outro dia.  Não posso negar que senti um aperto em pensar que outras pessoas vinham em outros veículos atrás dele e que poderia ter acontecido coisa pior devido a circunstância. No entanto, a única verdade que estava a minha frente era aquele rapaz semimorto sobre o asfalto. Um de seus colegas andava de um lado a outro segurando o celular e aos gritos com alguém do outro lado da linha. Havia também outra pessoa vasculhando os bolsos do rapaz a procura, talvez, do celular dele para avisar os parentes. Enquanto isso mais pessoas iam se aglomerando. E, novamente ouvi aquela mesma voz de outro dia dizer - Eu não te disse? - Disse o quê? Perguntei sem prestar atenção em quem falava comigo. Então ele replicou - Há pessoas que chamam por ela achando que, ela é ela. Há pessoas que jamais querem vê-la. Há pessoas que imaginam que ela é a solução, porém, há outras que apenas a temem. Também há pessoas que simplesmente a respeitam, porque sabem que nada não se acaba em nada, e que logo tudo passará para um estado ao qual não se pode explicar. Curiosamente, tive vontade de voltar meus olhos para ver quem estava atrás de mim tecendo palavras de tão forte reflexão. No entanto, além de mim só havia duas moças conversando entre si. Saí dali pensando que a nossa consciência fala conosco o tempo todo. Que ser mau ou bom é uma escolha de natureza humana. Que bondade e maldade não é exclusiva de ninguém, pois o que realmente pode diferenciar uma pessoa de outra é como ela chegará ao final de tudo.  


Tuesday, October 28, 2014

O SER MALUM



Será que o cinema está deixando o velho estilo de criar mocinhos e heróis para humanizar a vilania? Ou querem apenas lembrar que a essência humana não é má? Ao contrário do que muitos de nós pensamos a bondade de um indivíduo pode sim, ser transformada em pura maldade. No entanto, antes de qualquer julgamento é preciso entender os fatores que originaram o malum, que muita das vezes pode ser justificado por razões adversas.  Por gerações cultivamos a simpatia pelos paladinos, porém, nunca paramos para pensar sobre qual é a motivação dos vilões para serem sempre tão vingativos e tiranos. Então que tal olharmos para o passado de dois grandes perversos que recentemente foram humanizados pelo cinema? Sim, humanizados, por que não usarmos esse termo para compreender o que os levou a práticas tão cruéis e implacáveis? 
Primeiramente, vamos decifrar um pouco sobre Vlad III, o empalador que foi príncipe de uma província chamada Valáquia na Romênia. Historiadores o descrevem como um homem que torturava até a morte espetando os inimigos enquanto as artes o retratam como um ser grotesco e sedento de sangue que mata casualmente.

Desde a invenção do cinema o sanguinário vampiro tem inspirado muitas outras versões que vão desde o clássico “Nosferatu – O vampiro da noite” de Herzog a “Drácula de Bram Stoker”, ambas as interpretações foram baseadas na obra do escritor irlandês Bram Stoker. Outra inspiração que também deve ser lembrada de Drácula é a interpretação do brilhante ator húngaro Béla Lugosi. No momento temos a versão mais recente dele “Drácula - A história nunca contada” de Gary Shore, no entanto, este ainda não supera o imbatível filme de Francis Ford Coppola que trás um vilão sedutor, sarcástico e duramente cruel. Mas afinal, o que realmente queremos perceber na origem do malum? Na verdade, queremos enxergar a quebra do paradigma oferecido na versão de Shore quando nos apresenta um vampiro humanizado que luta com o mais forte pelo mais fraco, onde a crueldade é a defesa do oprimido, todavia, isso não reflete nem de perto a verdadeira história de Vlad III.

Não obstante, temos Malévola, outra personagem controvérsia, esta por sua vez foi traída, seu malum é justificado pelo ato de punir aqueles que não lhe fizeram mal somente para atingir o verdadeiro culpado do seu sofrimento. Contudo, a sua redenção ressurgi quando a humanidade restante é resgatada pelo arrependimento do perdão pelo amor.

Friday, July 25, 2014

TEMPO DE ESPERA

“Se quer saber nunca é tarde demais...pra ser quem você quiser ser.”

A expressão “Se não for de novo, de velho é que não escapa” faz lembrar que o mundo é uma grande nave e que somos todos passageiros nela. O bilhete para alguns é grátis, porém, para outros nunca sai de graça. A volta é sempre garantida depois de algum tempo, além de resultar em situação boa ou ruim, mas isso vai depender se algo ficar inacabado durante o trajeto. O percurso também pode ser longo ou curto, no entanto, isso não é determinado por nós. É prudente lembrar que a coisa mais importante da viagem é cumprir a temporada. Se por acaso pensar em fazer a besteira de saltar da nave antes do prazo estipulado tenha em mente a certeza que ficará vagando pelo espaço perdido sabe lá por onde até encontrá-la de novo e concluir o itinerário a partir de onde parou. 
“Não há limite de tempo, comece quando você quiser. Você pode mudar, ou ficar como está. Não há regras pra esse tipo de coisa. Podemos encarar a vida de forma positiva ou negativa. Espero que encare de forma positiva.”
 
A pior coisa é começar algo do nada, porém, esse nada também pode significar alguma coisa, por isso que durante a jornada terá de realizar tudo que for necessário para não deixar qualquer pendência, sem esquecer ainda que deve rezar para não ter de retornar novamente, pois a nave é senhora do seu tempo e do seu destino.
“Espero que veja coisas que surpreendam você. Espero que sinta coisas que nunca sentiu antes. Espero que conheça pessoas com pontos de vista diferentes. Espero que tenha uma vida da qual se orgulhe.”

No decorrer do tempo que estiver na nave procure ver tudo, experimentar tudo, amar tudo, sentir tudo, mesmo que seja dor e lágrimas. 
"Estamos destinados a perdermos as pessoas que amamos. De que outra forma saberíamos o quanto elas foram importantes?"
 
Porque o verdadeiro sentido de viajar nessa nave é aprender a doar-se, perdoar a si mesmo e aos outros mesmo que sem vontade e merecimento, amar e ser amado, compreender e ser compreendido caso isso seja possível, ser irredutível e tirano, mas também ser a luz para alguém ou para muitos, pois perder ou ganhar realmente não faz ninguém melhor e nem pior. 
“E se você descobrir que não tem, espero que tenha forças pra conseguir começar novamente.”


                                                                                         O curioso caso de Benjamin Button 

Saturday, May 17, 2014

O VIAJANTE DO TEMPO




Pela primeira vez uma obra chamou minha atenção para buscar o porquê de uma menina roubar livros. Eu não quis ler sinopse ou qualquer outro texto referencial publicado somente para deixar a minha curiosidade sobre a questão bem viva, no entanto, me ative em saber que o núcleo principal da história se passou durante a segunda guerra mundial. Os anos passaram, mas sempre que ouvia alguém citar o título dele novamente eu ficava a imaginar um milhão de possibilidades, pois o universo literário é assim, um verdadeiro mundo de possibilidades ou não. E, depois de tanto tempo de curiosidade, finalmente comecei a lê-lo.

Logo no começo percebi que havia um viajante narrador misterioso e que não era a protagonista, notei também que ele exercia grande poder. Cada encontro com ele era marcado e outros nem tanto, às vezes tais encontros também podiam ser antecipados, mas se isso acontecesse seria contra a vontade dele. O viajante revelava tudo com seus mistérios, e a recompensa para aqueles que o encontravam era serem recolhidos a um plano ímpar e particular que somente ele sabe onde está localizado.  

Os livros que a menina roubou durante os primeiros anos de sua juventude foram a compensação da esperança, da ilusão e do aprendizado meio a tantas incertezas.     Por três vezes Liesel encontrou o viajante misterioso, cada encontro era marcado por lágrimas, dor e solidão, no entanto, na última vez que eles se encontraram, ela teve de acompanhá-lo.